Por Katsuhiro Asagiri

ROMA/TÓQUIO (INPS Japan) – À sombra do Coliseu de Roma — outrora um monumento à violência imperial — líderes religiosos de todo o mundo reuniram-se esta semana para transmitir uma mensagem que soou tanto ancestral quanto urgente: a paz deve, mais uma vez, tornar-se o dever sagrado da humanidade.
A ocasião foi o “Ousar a Paz”, o Encontro Internacional pela Paz: Religiões e Culturas em Diálogo, organizado pela Comunidade de Santo Egídio. Durante três dias, padres, rabinos, imames, monges e estudiosos debateram o que significa manter a fé em uma era definida pelo medo, pelo nacionalismo e pela guerra.|ENGLISH|CHINESE|SPANISH|RUSSIAN|
O encontro foi encerrado na noite de terça-feira com o Papa Leão XIV presidindo uma cerimônia que foi, em partes iguais, um ato de oração e uma declaração política.
“A guerra nunca é santa”, disse o Papa. “Somente a paz é santa — porque é a vontade de Deus.”
Um Chamado à Coragem Moral
Falando sob o Arco de Constantino, o Papa Leão instou governos e fiéis a resistirem ao que chamou de “a arrogância do poder”.
“O mundo tem sede de paz”, disse ele. “Não podemos permitir que as pessoas se acostumem com a guerra como uma parte normal da história humana. Basta — este é o grito dos pobres e o grito da terra.”
A multidão, reunindo milhares de pessoas, incluía representantes do cristianismo, judaísmo, islamismo, budismo e hinduísmo. Entre eles estava Hirotsugu Terasaki, vice-presidente da Soka Gakkai, uma organização budista com um longo histórico de defesa da paz.
Eles permaneceram juntos em silêncio enquanto velas eram acesas ao redor do antigo anfiteatro — pequenas luzes bruxuleando contra a pedra, simbólicas de uma prece compartilhada pela reconciliação.
Fé e Responsabilidade
O discurso do Papa traçou uma linha clara entre a fé e a responsabilidade política.
“A paz deve ser a prioridade de toda política”, afirmou. “Deus pedirá contas àqueles que falharam em buscar a paz — por cada dia, mês e ano de guerra.”

Essas palavras, proferidas enquanto os combates continuam na Ucrânia e em Gaza, carregavam um tom deliberadamente contundente. O Vaticano sob Leão XIV tem se posicionado cada vez mais como um contrapeso moral à paralisia política diante das crises globais — tratando a paz não como uma abstração, mas como uma obrigação.
Lições de Assis
O encontro deste ano marcou quase quatro décadas desde que João Paulo II convocou a primeira reunião inter-religiosa pela paz em Assis, em 1986. Desde então, a Comunidade de Santo Egídio tem defendido que o diálogo entre as religiões pode atenuar as divisões políticas.

“Ousamos falar de paz em um mundo que fala a linguagem da guerra”, disse Marco Impagliazzo, presidente do grupo. “Fechar os caminhos do diálogo é loucura. Como disse o Papa Francisco, o mundo sufoca sem o diálogo.”
Sessão sobre a Dignidade da Vida
Mais cedo, na terça-feira, a delegação da Soka Gakkai participou da Sessão 22, intitulada “A Justiça Não Mata: Abolindo a Pena de Morte”, realizada no Fórum Cultural Austríaco.
A Professora Enza Pellecchia, da Universidade de Pisa, representando a Soka Gakkai, subiu ao palco e falou sobre os esforços do movimento para abolir a pena de morte, citando as palavras de seu fundador, o Presidente Daisaku Ikeda, em seu diálogo com o historiador britânico Dr. Arnold Toynbee.
“A sacralidade da vida não pode ser julgada por culpa ou mérito — todas as vidas são iguais. Portanto, ninguém tem o direito de tirar uma vida, mesmo em nome da justiça. Aceitar a pena de morte é uma forma de violência institucionalizada que atribui valores diferentes à vida humana; o Presidente Ikeda descreveu-a como ‘uma manifestação da tendência predominante nos tempos modernos de desvalorizar a vida’.”
A Professora Pellecchia afirmou que a filosofia humanística do Presidente Ikeda ressoa profundamente com a recente declaração do Papa Leão XIV de que “não se pode afirmar ser pró-vida enquanto se aceita a pena de morte ou qualquer forma de violência”. Ambos, observou ela, confrontam o mesmo erro moral — a crença de que algumas vidas são descartáveis.
Quando a Religião se Recusa ao Silêncio
Por décadas, o Coliseu tem abrigado encontros simbólicos pela paz. No entanto, os participantes afirmaram que a cerimônia deste ano carregava uma urgência ainda maior. As guerras na Europa e no Oriente Médio, o deslocamento de milhões de pessoas e a ascensão do autoritarismo deram um novo peso à linguagem moral.

“A paz começa com a transformação do coração humano”, disse Terasaki, da SGI. “A cooperação inter-religiosa não é apenas simbólica — é um método para mudar a história.”
Um Apelo que Ainda Ecoa
Ao cair da noite, o trompetista Paolo Fresu realizou um solo melancólico. Crianças deram um passo à frente para entregar um Apelo pela Paz a diplomatas e autoridades — um lembrete de que a próxima geração herdará as escolhas feitas agora.
As palavras finais do Papa foram breves, quase um sussurro:
“Deus quer um mundo sem guerra. Ele nos libertará deste mal.”
As velas continuaram a queimar enquanto a multidão se dispersava — uma frágil constelação de luz contra as ruínas do Império Romano, e um ato silencioso de desafio em um mundo que ainda está aprendendo a ousar a paz.
Este artigo é uma contribuição da INPS Japan em colaboração com a Soka Gakkai International, organização em caráter consultivo com o Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (ECOSOC).
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